Aquela rachadura que ninguém quer ver

Por Dinovan Dumas

Não dá mais para dizer que não está sabendo. A reforma tributária está chegando devagar e, agora, nessa altura do campeonato, ninguém mais pode se dizer surpreendido. Anunciada nos jornais, nas reuniões de associações, nas conversas de corredor, enfim, a mudança das regras chegou é agora é certa. Ela vai acontecer. O que é incerto ainda é quando todos estarão efetivamente preparados para recepcionar esse amontoado de regras novas que serão implementadas ao longo dos próximos anos. E é justamente nessa incerteza que reside algo interessante: o tempo que você tem agora é o tempo que você não vai ter depois.

Pense em um edifício bem construído. Estruturas são sólidas, sistemas que funcionam, equipamentos bem regulados. Mas imagine uma pequena rachadura que aparece na fachada. Nada grave, nada que justifique ação imediata, mas algo que está ali, à sua vista toda vez que você sai com o carro pela garagem.

Ela está lá, quase invisível, quase aceitável. Semanas passam, chega a época das chuvas e a água entra pela fresta. A umidade avança e, obviamente, outras rachaduras aparecem. E quando você finalmente presta a atenção para o edifício, já era! Você não consegue mais reconhecer aquilo que existia antes. Não porque tudo desabou de uma vez. Mas porque a negligência foi silenciosa, gradual, e ninguém se sentiu responsável por consertar a primeira rachadura.

A reforma tributária é assim. Não é um evento, é um processo. E processos não matam empresas quando começam. Via de regra, elas morrem quando as empresas decidem não começar. Há uma diferença crucial entre ignorar uma mudança e ignorar o tempo que você tem para se adaptar a ela. A mudança vem de qualquer forma. Mas o tempo é sempre finito. E é justamente nessa finitude que reside o perigo. Porque enquanto você espera, seus concorrentes não esperam. Enquanto você adia aquela conversa difícil com o time fiscal ou de compliance, por exemplo, outras organizações já estão reconfigurando suas estruturas. Enquanto você empurra para depois a revisão de processos, o mercado já está se movendo.

O que é particularmente insidioso nessa negligência é que ela não dói no começo. Os números ainda fecham, os clientes ainda compram, as operações ainda funcionam. Mas por baixo, nos bastidores, uma desconexão está se formando. A área tributária trabalha com uma interpretação e o financeiro com outra. A operação segue um caminho, o comercial segue outro. Ninguém está errado, mas ninguém está alinhado. E quando a reforma finalmente se materializa, essa falta de alinhamento vira o maior custo. E aí, meu caro(a), não há consultoria que conserte a bagunça que você deixou crescer em silêncio.

Outro dia eu conversava com um amigo (e cliente) e explicava para ele: a reforma tributária não é apenas uma questão de ordem técnica, afeta às equipes contratadas para pensar a operação fiscal e tributária da empresa. Ela é um tema ligado à governança. Sobre ter clareza (aquela clareza que falta em tantas empresas, processos, pessoas que entendem não apenas o que muda, mas a razão da mudança. É sobre estar preparado não para o que você acha que vai acontecer, mas para o que já está acontecendo.

No meu dia a dia tenho a oportunidade de me relacionar com um número grande de executivos, daqueles que realmente entendem as regras do jogo, e tenho tido a chance de observar que, pelo menos esses, com quem tenho mais proximidade, têm uma coisa em comum: eles não estão esperando para agir motivados pela urgência. Eles construíram a urgência antes que ela os construísse, olhando, então, para a reforma e perguntando (de verdade, não só de boca para fora): “O que muda para nós? O que precisamos fazer? Quando precisamos fazer?” E então eles agem! Não porque são obrigados, mas porque entendem que a possível negligência (que muitas vezes se esconde sob a roupagem das tais “prioridades”) tem um custo que ninguém consegue calcular até que seja tarde demais.

Sabe aquela história de “vamos esperar para ver como fica.” Então, ela não vai te conduzir para um lugar interessante. E chegar a essa conclusão não demanda muito esforço intelectual ou interpretativo. Basta lembrar que a reforma não tem nada a ver com uma série de streaming que você pode pausar quando quiser. Logo, “esperar para ver como fica” é exatamente o que você não deve e não se deve fazer. Porque quando você finalmente vê como fica, você já está atrasado (porque deixa de entrar no modo ação para se jogar no camarote do modo reação).

O que é paradoxal é que a solução é sempre mais simples do que parece. Não é uma solução técnica sofisticada, um software novo ou um consultor caro. É uma solução de gestão, daquelas que basta sentar-se com o time e fazer as perguntas certas. Estabelecer prazos, criar rituais de acompanhamento, designar responsabilidades e, em suma, fazer o trabalho que deveria ter sido feito desde o momento em que você soube que a reforma vinha.

A reforma tributária é responsabilidade sua, do CFO, do Diretor Jurídico e de todos aqueles que têm poder de decisão. Então, quando você estiver tomando um café, lembrar das tarefas que precisam ser cumpridas e for seduzido(a) por aquele impulso de esperar, de adiar, de empurrar para depois etc., recomendo que pare, respire e não permita que aquela rachadura pequena e que ninguém deu bola cresça até se tornar uma avalanche de problemas. Um buraco que ninguém mais consegue tapar.

A reforma tributária não é uma ameaça. Ela é um aviso e, como tal, existe para ser ouvida, não para ser ignorada enquanto você espera para ver como fica.

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