A Ficção que Sustenta o Mundo

Por Dinovan Dumas

Em 1990, o neurocirurgião Frank Meshberger publicou na revista JAMA o que ninguém havia dito nos quatro séculos anteriores. Ele defendeu que o manto vermelho que envolve a imagem de Deus e dos anjos em “A Criação de Adão”, a cena mais famosa do teto da Capela Sistina, não é um franzido qualquer. Representa, na verdade, e com a precisão que supera o acaso, um corte sagital do cérebro humano. Lobo frontal, tronco cerebral, hipófise etc. Está tudo lá, escondido à vista de todos desde 1512.

Michelangelo era anatomista. Dissecou cadáveres em segredo, contra a lei e contra a Igreja que o contratou, para entender o corpo humano por dentro. Se a imagem é deliberada (e a precisão anatômica sugere que é), a mensagem estava escondida exatamente onde o poder que a encomendou jamais pensaria em procurar: no próprio afresco que mandou pintar.

Essa história traz uma questão interessante e relativamente incômoda: como foi possível uma imagem dessas ficar invisível por quatro séculos, admirada por papas, cardeais e milhões de visitantes, sem que ninguém quisesse (ou pudesse) ver o que ela revelava? A resposta que me vem à cabeça e que me soa mais lógica é que a ficção era tão necessária, que não houve tempo de ser questionada. E me sugere que, quando uma ficção é necessária o suficiente, ela se torna invisível.

O que distingue o ser humano de todos os outros animais é a capacidade de acreditar coletivamente em ficções. Defende-se por aí, por exemplo, que o dinheiro não existe. Quando nos referimos a ele, falamos sobre um pedaço de papel que, por conta de um acordo tácito e renovado a cada segundo por bilhões de pessoas, tem algum valor. Com as nações do mundo todo a questão é a mesma, elas não existem. O que existem são linhas desenhadas em um mapa e a disposição de algumas pessoas de morrer exercendo a defesa delas.

No mercado financeiro as coisas acontecem mais ou menos assim. O Banco Central não enxerga o interior de cada operação que acontece no mercado, o FGC não tem caixa infinito para a reposição de perdas garantidas e a auditoria não lê cada linha de código do sistema. O que sustenta as coisas, portanto, não é a onisciência do regulador, mas a crença generalizada de que o regulador está de olho. E isso é suficiente para que a maioria dos agentes se comporte como se estivesse sendo observada.

Jeremy Bentham entendeu isso no século XVIII quando projetou o Panóptico, uma prisão em que os detentos nunca sabem se estão sendo vigiados, mas agem como se sempre estivessem. Uma demonstração clara, nesse caso, de que nem sempre o poder precisa ser exercido. Para funcionar, basta que ele seja acreditado. É a realidade do mundo que existe a serviço do mercado de capitais, onde todo mundo sabe, no fundo, que a vigilância é parcial, mas age (ou deveria agir) como se fosse total. O sistema funciona, é fato. Mas até o momento em que alguém descobre onde estão as costuras.

Eis a tradução do que ocorreu no caso Master, pois foi exatamente isso que ele efetivamente expôs. Não revelou simplesmente a maior fraude do sistema financeiro brasileiro. Digo até que essa é uma leitura ou uma interpretação preguiçosa e panfletária. O que ele escancarou de verdade é que a arquitetura do sistema permite que agentes sofisticados operem no espaço entre a crença e a realidade, e que esse espaço é maior do que a maioria dos investidores imagina.

Veja: a ficção, para funcionar, precisa de manutenção constante. Quando o gap entre o que o sistema promete e o que ele efetivamente entrega se torna grande demais, ela não se ajusta, simplesmente colapsa. E colapsos de ficção coletiva acontecendo no mercado financeiro têm nome: crise de confiança.

Michelangelo, “O Divino”, soube disso antes de todo mundo. Pintou a resposta no teto, esperou quatrocentos anos e ninguém sequer perguntou. Mas sempre, em todas as vezes, a pergunta chega. A questão é quanto custa o silêncio que vem antes dela (no caso Master, custou R$ 40 bilhões).

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