Por Dinovan Dumas
Em 1990, o neurocirurgião Frank Meshberger publicou na revista JAMA o que ninguém havia dito durante os quatro séculos anteriores: que o manto vermelho que envolve a imagem de Deus e dos anjos em “A Criação de Adão”, a cena mais famosa daquela pintura que fica no teto da Capela Sistina, não é um franzido qualquer. Representa, com uma precisão tão grande que supera o acaso, um corte sagital do cérebro humano. Lobo frontal, tronco cerebral, hipófise. Está tudo lá, escondido à vista de todos desde 1512.
Compreensível. Michelangelo era anatomista e em razão disso ele dissecou, em segredo, uma série de cadáveres em segredo, contra a lei e contra a Igreja que o contratou, para entender o corpo humano por dentro. Se a imagem é deliberada (e a precisão anatômica sugere que é), a mensagem estava escondida exatamente onde o poder que a encomendou jamais pensaria em procurar: no próprio afresco que mandou pintar.
Mas o que me fascina nisso não é o debate sobre a intenção do artista. O meu encanto reside na tentativa de entender como uma imagem pode ter ficado “invisível” por quatro séculos, admirada por papas, cardeais e milhões de visitantes, sem que ninguém quisesse (ou pudesse) ver o que “realmente” estava lá? As respostas que ensaio me induzem no sentido de que a ficção era tão necessária, que não podia ser questionada. O manto era lindo e a cena grandiosa. Ninguém precisava olhar mais fundo.
Trago essa história porque ela me voltou à cabeça há poucos dias, quando o Congresso colocou em pauta a redução da maioridade penal (de novo). Tenho opinião formada sobre esse tema desde 2015, pelo menos, quando escrevi sobre o assunto pela primeira vez: a redução da maioridade penal é, do ponto de vista técnico, erro crasso.
Mas algo pior do que o erro em si é essa insistência eleitoreira que uma parte do Congresso credita à questão. Passados onze anos, os dados continuam os mesmos e a discussão continua igual: (1) jovens entre 16 e 18 anos são responsáveis por uma parcela ínfima dos crimes praticados no país; (2) a população carcerária brasileira é composta por 72% de pessoas negras; (3) o Brasil tem mais de 10 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais; e (4) o sistema prisional, que receberia esses adolescentes, tem uma taxa de reincidência que supera 70%.
O resultado dessa conta é obvio, portanto. Reduzir a maioridade penal não enfrenta o crime. O que ela faz é ancorar-se nos sintomas e ignorar a doença. É a política do manto, onde tudo muito imponente fica na superfície, com uma resposta escondida dentro. O que enfrenta o crime é o que o poder público brasileiro historicamente adia: escola de qualidade, saúde acessível, cultura, esporte e perspectiva real para jovens que crescem em territórios onde o Estado aparece mais fardado do que presente. Isso não cabe em discurso de plenário porque não gera manchete ou clique no Instagram. Não satisfaz o eleitor que quer ver resposta imediata para um problema que o assusta.
Então o Congresso faz o que sabe fazer: olha para o adolescente em conflito com a lei e vê problema. Não vê o que está dentro do manto, não vê a ausência de escola, de saúde, de cultura e de futuro. Aqui, a ficção da solução é tão palatável eleitoralmente que a pergunta real nunca chega ao plenário: por que esse jovem chegou até aqui?
Michelangelo escondeu no teto da Capela uma resposta que a Igreja jamais aprovaria. O Congresso faz o inverso: exibe no plenário uma solução que parece resposta, mas carrega dentro dela exatamente o problema que diz querer resolver. A pergunta sempre chega. A questão é quanto custa o silêncio que vem antes. No Brasil, esse silêncio tem custado gerações.



