Por Dinovan Dumas
Anota aí, se esse ainda não for o seu caso: depois que a gente tem filhos a nossa vida nunca mais é a mesma. É isso. A chegada dos rebentos gera uma mudança tão grande na vida da gente, que ela é capaz de transformar eventos simples, como chegar em casa e afrouxar a gravata para ver um filme, em raridades quase nunca praticáveis.
Esqueça de uma vez por todas as noites de sono ininterrupto ou a possibilidade de aproveitar os quase quatro metros quadrados de cama curtindo a vida de casal. Esse formato já era, virou passado. Ou a chance de escolher o lado mais aconchegante do colchão e de cobrir-se integralmente com o edredom, sem deixar o pé ou um lado inteiro do corpo de fora. Situações como essas não acontecerão antes dos 15/16 anos após o parto.
E não seja ingênuo(a) o suficiente para pensar que vez ou outra você terá a chance de aproveitar essas, digamos, regalias. Haverá noites em que você vai deitar na cama, o silêncio vai reinar, você vai ligar a TV ou abrir o seu livro predileto, mas cinco ou dez minutos depois as ondas sonoras daquele choro agudo do seu filho ou da sua filha vão tomar conta do ambiente, invadindo cada milímetro do seu cérebro e impedindo que ele consiga ignorar o ruído pelo tempo suficiente para esperar a cria pegar no sono de novo. Esquece!
E sabe qual é a parte mais interessante dessa história? Você vai acabar viciado(a) nisso. Sim, é isso. Você vai experimentar a paternidade ou a maternidade, vai achar que a fábrica deve fechar, a (pseudo) normalidade vai começar a voltar mas, de repente, como numa crise de abstinência, você vai sentir que alguma coisa está fora do lugar, que há um vazio na vida do casal e que falta mais uma dose. E, assim, do nada, um teste de farmácia mais caro que o Abaporu vai florescer com dois risquinhos avermelhados anunciando que aquilo que estava ficando no passado vai acontecer de novo.
E dá-lhe a impossibilidade de dormir novamente.
É isso, essa relação da paternidade/maternidade entorpece. Ela transforma a gente num ser dependente dessa reação química entre pai/mãe e filhos numa intensidade tão grande que ninguém, absolutamente ninguém, é capaz de te isentar. Não existe clínica de recuperação que conserte o vício de chegar em casa e ser abraçado pelo mais velho, ou de ganhar um sorriso acanhado do mais novo. Ou de sair para trabalhar e, minutos depois, receber uma foto da mamãe com o primogênito fuçando no computador, sob o argumento de que precisa ajudar o papai a terminar aquele trabalho que ele passou o dia anterior inteiro estudando, estudando, estudando e enfim escrevendo.
É um vício sem clínica de reabilitação. Uma verdadeira anomalia para os tempos que vivemos hoje, em que foi criado um botão de ‘desistir’ para quase tudo. Hoje em dia a gente consegue cancelar assinaturas em dois cliques, pedimos demissão por aplicativo, desfazemos sociedades com cláusulas bem redigidas e até o casamento, que já foi a maior promessa de compromisso definitivo que existia, tem rito de saída mais rápido que abrir uma empresa.
Só uma coisa ainda não tem cláusula de arrependimento. E não é career gap, não é arrependimento de compra, não é match errado que se desfaz deslizando o dedo para o lado certo na tela do celular. É a única assinatura da vida adulta que vem sem parágrafo de rescisão, sem multa que compre a saída e sem prazo de reflexão de sete dias. Você assina uma vez, com aqueles risquinhos vermelhos do teste de farmácia, e pronto: não tem letra miúda te protegendo de mudar de ideia depois.
Os que convivem comigo de forma mais próxima sabem da minha ausência de relação com o divino. Ainda assim, tenho tido algumas certezas depois que eles nasceram. E uma delas é bastante objetiva: se Deus realmente existe, assinar esse contrato sem saída é o mais perto que a gente chega d’Ele.



