Por Dinovan Dumas
Há poucas semanas foi o “dia do amigo” e as comemorações que eu vi aqui e acolá me fizeram lembrar duas características bem marcantes do meu pai, que me gravam a memória até hoje. A primeira é quanto à forma. Depois dos primeiros anos da década de 1980, quando saiu da ativa e foi para a reserva (depois de mais de 30 e poucos anos de trabalho), ele só usava pijama. De segunda a segunda, se estivesse em casa ele certamente estaria revezando dois ou três conjuntos de tecido fininho, quase transparente de tão surrados que estavam, com destaque para um em tom laranja desbotado, marcado pelo tempo. Até hoje fecho os olhos e enxergo a imagem d’ele debruçado no portão da frente, curtindo o sol da manhã e observando a vida alheia.
A segunda é quanto ao jeito. A marca registrada daquele coroa enxuto, mais forte que um trator, de cabelo crespo e pele escura era o fato de não ter amigos. Dos 14 anos que vivi na companhia dele foram poucas, muito poucas as vezes que alguém esteve em casa para visitá-lo ou, sei lá, que ele próprio tenha saído para encontrar alguém que ele chamasse de amigo. O único que raramente cumpria esse papel era um antigo colega de farda, também forçadamente enviado para a reserva e que, na ativa, tinha sido o motorista da sua viatura e seu mais fiel escudeiro. Baseado na teoria de que o exemplo é repetido ou repelido, presumo vir daí o fato de eu não gostar muito de pijama e de valorizar as amizades que me acompanham ao longo da vida.
Os meus primeiros amigos foram conquistados em uma tarde de sábado, quando eu tinha cinco ou seis anos. Essa é uma das lembranças mais antigas que carrego, inclusive. Eu morava em um ladeirão típico da ZN, onde nasci e fui criado, e brincava na calçada com um carrinho que ganhei do meu irmão. Me lembro como se fosse hoje quando o caminhão da mudança estacionou bem na porta do prédio vizinho e desceram dois irmãos franzinos, da mesma idade que eu, e das duas perguntas que lancei sem cerimônia. Questionei se morariam ali e se topariam ser meus amigos. O duplo sim dado como resposta já atravessa (de forma sólida e sincera) mais de quatro décadas, sem qualquer necessidade de microgestão.
O resultado super-positivo daquela ingênua construção me fez acreditar que o nascimento de amizades sinceras surgia assim, de atos simples como o de perguntar. Mas o tempo foi passando, o cabelo foi caindo e a experiência foi mostrando que a amizade verdadeira, aquela que não é construída da boca pra fora, nem sempre é generosa com a palavra, mas nunca, em nenhuma hipótese, falha nas atitudes. Amizade sincera dispensa abraço público e nunca hesita em segurar a nossa mão. Mesmo nos momentos em que a fidelidade genuína custaria alguma coisa.
Aristoteles já tinha resolvido essa conta antes de mim quando ensinou que existe amizade de utilidade, que dura o tempo da utilidade, e existe amizade de virtude, que dura o tempo da vida. A primeira usa a palavra “amigo” como ferramenta. A segunda, como compromisso. E a diferença entre elas nunca aparece nos dias fáceis. É por isso que vivo rodeado por um grupo pequeno de bons amigos, do tamanho de uma mesa de bar, e prefiro assim. E ainda tenho a sorte de ter encontrado alguns dos melhores dentro da própria sociedade que dia após dia ajudo a construir. Todas elas foram testadas em condições duras e sempre, em todas as vezes, sobreviveram à discordância franca, à crise, e ao café da manhã do dia seguinte.
Meu pai escolheu se debruçar sobre um portão fechado. Ficou ali boa parte da vida, com o seu pijama laranja desbotado e vendo os outros viverem lá fora, sem abrir o trinco para que os amigos entrassem. Eu escolhi o contrário. E hoje, quando começo a colher os efeitos da tal experiência da vida, enxergo com absoluta clareza que a mesa de bar que me rodeia é a prova de que valeu a pena. Aos que resistiram, o meu carinho, o meu afeto e o meu agradecimento (com um certo atraso) sincero: feliz dia do amigo!



