Por Dinovan Dumas

Meu pai me ensinou a jogar damas antes de eu aprender a ler. Não por método, mas por teimosia. As caraminholas da cabeça dele diziam que, para um garoto daquela idade, pensar três jogadas à frente era mais útil do que saber soletrar. Eu perdia sempre e repetia, com aquela curiosidade religiosa da infância, como ele tinha ganhado. A resposta era a mesma: “Você só olhou pro seu lado do tabuleiro.”

Lembrei disso esses dias, em uma reunião com um cliente que tinha acabado de assinar um contrato de parceria comercial. Tudo bonito, tudo alinhado, tudo certo. Conheci o documento e perguntei se ele tinha lido com atenção a cláusula de rescisão antecipada e já imaginei, pelo silêncio, que não. Redigida pelo advogado da outra parte, ela previa multa de 24 meses de faturamento estimado. Considerando que o contrato tinha o prazo de 36, ele tinha assinado, na prática, uma armadilha.

Não estou contando essa história para vender medo. Os que já me conhecem de perto sabem que não é meu perfil agir assim. Estou contando porque ela ilustra algo que vejo há mais de vinte anos, quase todos os dias: pessoas inteligentes, com carreiras sólidas, bem construídas, capazes, experientes, tomando decisões importantes sem olhar para o outro lado do tabuleiro. Não por ignorância, obviamente, mas pela falta de alguém que olhasse junto.

Sou advogado há pouco mais de duas décadas e criei uma característica que nem todo mundo gosta (mas que alguns clientes adoram): quando alguém me apresenta uma ideia com entusiasmo, minha primeira reação é procurar o furo. Um exercício de hábito ensinado pelo Direito: todo argumento tem um contra-argumento, todo contrato tem uma cláusula que pode virar contra você e toda certeza merece pelo menos uma pergunta incômoda.

Há situações, portanto, em que ajo como uma pessoa divergente. Sempre convicto de que a melhor forma de fortalecer uma ideia é testá-la contra o argumento oposto. Se ela sobrevive, ótimo, agora sabemos que ela é sólida. Se não sobrevive, melhor que tenha caído na minha mesa do que em uma das salas do Judiciário.

Com o tempo, fui entendendo que essa forma de pensar (a de sempre procurar a outra margem) não serve só para contratos e processos. Serve para gestão de equipe, para decisões de negócio, para leitura de cenário e, claro, para a vida. E que talvez fizesse sentido compartilhar isso de forma mais organizada do que em conversas de corredor ou em reuniões com clientes.

A Outra Margem é isso: um espaço onde eu escrevo sobre o que vejo do meu lado do tabuleiro e tentando mostrar o lado que você talvez não esteja vendo. A cada quinze dias, vou falar de contratos, de sociedade, de planejamento sucessório etc. Mas também de liderança, de gestão, de como é ser sócio de um escritório de advocacia sem manual de instruções. Vou falar de cultura, de política, de paternidade e de outras coisas que me provocam. Porque acredito que um advogado que só pensa em Direito não pensa bem nem sobre o Direito.

Vou usar histórias pessoais, referências que me marcaram, casos (anonimizados, claro) que vivi. E vou me posicionar. Provavelmente, nem sempre você vai concordar. Aliás, espero que não concorde sempre, porque se concordar, é porque eu não fui longe o suficiente.

Mas, se você lidera uma empresa, uma equipe ou uma família, e se interessa por ter ao lado alguém que pensa antes de falar e fala quando precisa, essa coluna foi escrita para você. Se você é advogado e quer ouvir sobre como é tocar um escritório no Brasil real, com as alegrias, os perrengues e as lições que só o tempo ensina, também. E se você só gosta de ler uma coisa ou outra sobre assuntos que importam, puxe uma cadeira e acomode-se.

Seja bem-vindo(a) à nova newsletter do escritório MFBD Advogados: A Outra Margem!

Nos vemos em quinze dias!

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